A terceirização moral ocorre quando o estado arroga para si responsabilidades que seriam dos indivíduos. E a crise do coronavírus expôs como isso é prejudicial aos brasileiros, já que ter uma reserva financeira é essencial diante de uma crise, mas apenas 28% dos brasileiros declararam ter poupado algum dinheiro nos últimos 12 meses.

Isso não foi coincidência, mas uma consequência da terceirização moral que indivíduos permitiram ao estado. Ao final, eles ficaram mais vulneráveis a uma crise, algo que precisamos mudar com urgência para proteger a nós próprios.

Apesar de uma pandemia ser um evento raro e externo, não é como se um cenário de instabilidade econômica fosse um fenômeno secular no Brasil, e intriga o fato dos brasileiros não terem aprendido a se preparar para isso.

Vejam: na mochila de qualquer universitário em Curitiba, provavelmente haverá sempre dois artefatos inusitados para um dia de sol: um guarda-chuva e uma blusa (talvez duas). Isso porque o clima da cidade é tão volátil quanto do cenário econômico brasileiro.

Assim, uma chuva cair do nada, o frio surgir ao meio dia e a temperatura variar 20 graus em questão de horas não é surpresa. A lição é clara: prepare-se ou fique molhado e com frio. Os moradores sabem disso e os recém chegados aprendem rápido diante dos incentivos.

Ou seja, diante da volatilidade climática, os curitibanos aprenderam a se preparar para a possibilidade de uma chuva repentina, pois é o racional. Mas por que diante da volatilidade econômica histórica os brasileiros não aprenderam a se preparar para a possibilidade de uma crise?

O descuido previsto

Nessa perspectiva, é também estranho que uma crise econômica tenha atingido o Brasil e o cenário apresente pessoas sem poupança e empresas sem caixa suficiente para alguns meses de dificuldade.

Como resultado, governos federal, estadual e municipal precisaram correr para prestar socorro a todos eles, o que fomenta uma série de fracassos diferentes.

Porém, devido ao nosso histórico de intervenção estatal, surpresa seria se as pessoas estivessem preparadas. Afinal, foi ensinado a elas que o resgate do governo sempre chega.

O estado combate a mentalidade de que a liberdade deve sempre vir acompanhada da responsabilidade. Buscar autonomia é fruto da necessidade de se sustentar mesmo em tempos difíceis.

A terceirização moral ao estado brasileiro

Ao criar um programa de aposentadoria estatal, por exemplo, ele ensina:

  • não se dê muito ao trabalho de poupar.
  • não invista, só trabalhe e eu cuido de você depois.

Na ausência desse programa, as pessoas precisariam se preocupar com o futuro, entender sobre a importância de poupar e de não perder dinheiro.

Ou, quando o estado dificulta o acesso da população às diferentes formas de investimento, por meio de regulamentação e taxas, ele transmite a ideia de que:

  • investir é muito burocrático, e não é tão vantajoso;
  • investir é desnecessário: afinal, eu cuidarei de você.

Em países onde é fácil captar investimentos, os empreendedores recebem um pesado incentivo para defender a cultura de poupar e investir.

Dessa forma, campanhas de marketing poderiam ser feitas para atrair dinheiro aos negócios, reduzindo a preferência temporal da população.

Ao controlar a saúde e ainda regular os seguros até que o setor se torne incapaz de oferecer preços baixos e bons produtos, o estado ensina:

  • não se preocupe com despesas médicas;
  • não se preocupe com seguros, pois são muito caros.
  • calma, eu tenho o SUS para cuidar de você!

Na ausência de tantas barreiras custosas, o acesso à saúde seria muito mais barato e amplamente disponível.

Além disso, as pessoas economizariam para imprevistos ou, pelo menos, teriam mais incentivo para comprar seguros.

E, quando o estado controla a educação tanto diretamente via escolas públicas quanto indiretamente via regulações de currículo, o estado ensina:

  • não pense em outras formas de educar, afinal, são proibidas.
  • matricule suas crianças em uma escola, afinal, é obrigatório.

Sem essas barreiras, não haveria tanta dificuldade em lidar com as interrupções de aulas e as famílias poderiam utilizar métodos de educação digital e de homeschooling.

Além disso, no caso do estado brasileiro, há o histórico de inflação e de impressão de moeda descontrolada. Ao destruir o valor do dinheiro e, dessa forma, as poupanças, ele está ensinando:

  • poupança não vale a pena.
  • gaste hoje, viva o agora e depois a gente se vê.

A cultura do estado brasileiro

Esse intervencionismo estatal, nas mais diversas áreas, é o que impede a “cultura da poupança” de prosperar no Brasil.

Assim como essa cultura gera efeitos econômicos positivos, provenientes de uma preferência temporal mais baixa, também influencia as pessoas a fazerem reservas de segurança para crises.

Como toda regra, é claro que existem exceções: aqueles que querem poupar e precisam passar pelo moedor de carne que são os impostos e as barreiras.

Aliás, um agente especial merece atenção: o Banco Central. O esforço dele, nas últimas duas décadas, tem sido lançar os juros às taxas mais baixas imagináveis.

Por motivos óbvios, isso desincentiva pesadamente a poupança, já que os rendimentos serão mais baixos, por cortesia da intervenção estatal.

Outra consequência é o aumento do endividamento da população, uma vez que, os custos tornam-se menores e a mentalidade dos recursos infinitos passa a vigorar.

Por meio desses métodos, dentre tantos outros, o estado brasileiro cria uma cultura de imediatismo e irresponsabilidade, uma terceirização moral.

Isso significa que indivíduos transferem suas próprias responsabilidades ao estado, reservando para si apenas a necessidade de trabalhar com alguma frequência e não ter planos de longo prazo.

A terceirização moral é uma falsa promessa

Contudo, há um problema maior nessa situação: o estado não salvará as pessoas, pois tende a ser composto pelos mais irresponsáveis da sociedade.

Enquanto políticos responsáveis fazem ajustes, cortes e contenções, políticos populistas aumentam gastos, compram votos e jogam a conta para a próxima legislatura. Qual deles tem mais chance de ser eleito?

Enquanto políticos responsáveis defendem a independência dos indivíduos e um estado pouco interventor, políticos populistas fazem promessas e culpam fatores externos quando tudo da errado. Qual deles tem mais chance de ser eleito?

Infelizmente, esse é um sistema que se retroalimenta: quanto mais políticos populistas são eleitos, mais políticas de terceirização moral são aprovadas.

E, quanto maiores essas políticas, mais amplamente aceita é a cultura de terceirização moral na sociedade, o que eleva a demanda por esses políticos irresponsáveis.

Qual o resultado disso? Uma população constantemente à beira da falência, um estado constantemente à beira da falência e, quando uma crise chega, os dois quebram. Moralmente, e fiscalmente. É isso que precisamos mudar.

Fonte: Ideias Radicais

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